A Lupercalia e as origens do Valentine’s Day

O Dia dos Namorados no Brasil é comemorado em 12 de junho, apenas por uma estratégia de marketing. Junho era um mês sem nenhuma data especial, o que resultava num comércio desaquecido.

Em 1948, o publicitário João Dória criou o Dia dos Namorados na véspera do dia de Santo Antônio, santo casamenteiro.

_94645747_dia_namorados
Propaganda de lançamento do Dia dos Namorados no dia 12 de junho no Brasil

No resto do mundo, o Dia dos Namorados é celebrado em 14 de fevereiro. A história mais conhecida da origem dessa data comemorativa é a relação com San Valentino, sacerdote católico que foi proibido de realizar casamentos pelo Imperador Claudius II.

Conta a história que San Valentin desrespeitou as ordens do Imperador e continuou a celebrar os casamentos ilegalmente. Assim que foi descoberto, foi preso, e lá passou a receber cartas de casais apaixonados fazendo ode ao amor, às paixões, o matrimônio e as belezas de se saber amado. San Valentin foi decapitado no século III.

Entretanto, as origens desta data tão comemorada pelos amantes nos leva à Roma antiga, para as festividades de Lupercalia.

Origens da Lupercalia

ef98fc9f817e2841653a17c7a53e44a3

No calendário antigo romano, a Lupercalia era celebrada entre os dias 13 e 15 de fevereiro, em honra ao Deus Lupercus (em latim) ou Luperco (em italiano), protetor do gado ovino e caprino, e dos bosques.

Fevereiro, por sua vez, era tido como um mês de vigília e purificação (quanta semelhança com nosso Imbolc, não?). Até hoje, em algumas regiões campestres da Itália existem superstições quanto a esse mês, onde uma frase popular é repetida, sugerindo cuidado redobrado pelos dias que viriam:

“Febbraio, Febbraietto. Corto e Maledetto”

“Fevereiro, Fevereirozinho. Curto e Maldito”

O medo deste mês perdurou porque este era o período do ápice do inverno, quando os lobos famintos se aproximavam e ameaçavam os rebanhos. Ou seja, nada mais justo do que pedir ajuda à um Deus que protegesse seus animais: Lupercus.

Dionísio de Halicarnasso, historiador grego contemporâneo do século I a.C., defendia também que as festividades de Lupercalia seriam uma celebração ao milagre de alimentação de Rômulo e Remo, no mito da criação de Roma, uma vez que o animal que salvou os gêmeos era um lobo, ligando ao festival pela raiz “lupus”, lobo.

Figurativamente, a Lupercália tem como símbolo um lobo faminto tentando pegar algumas ovelhas.

A Lupercalia segundo Ovídio

luperci2

O poeta romano Ovídio, contemporâneo do séc. I d.C, nos conta que houve um período no reinado de Rômulo Augusto em que as mulheres ficaram estéreis. Para buscar uma solução para este fato, homens e mulheres marcharam em honra à Junus Februata (Juno Purificadora), e se ajoelharam suplicando para que estes tempos difíceis passassem.

Entretanto, a resposta de Juno não foi nem de longe a esperada: a fertilidade apenas retornaria se as mulheres fossem possuídas por uma grande cabra sagrada.

Os homens, descontes com a resposta da Deusa, buscaram auxílio. Um místico etrusco conseguiu interpretar favoravelmente o auspício divino: o período estéril seria agora superado se uma cabra fosse sacrificada e sua carne cortada em tiras, as quais quando acertassem as mulheres, dariam a luz depois de dez meses.

E assim foi feito.

A Lupercalia segundo Plutarco

WhatsApp Image 2019-02-14 at 09.08.21

O historiador grego Plutarco, também contemporâneo do séc. I d.C., nos documenta que os Luperci, grupo que se reunia no Monte Palatino (lugar onde foram alimentados Rômulo e Remo), sacrificou cabras e lobos e sujaram sua testa com o sangue destes animais.

Depois desse sacrifício, realizaram um banquete regado a muito vinho. Terminada bebedeira, eles saíram quase completamente nus, apenas com uma tanga de pele de cabra, com um chicote feito de pele de cabra. Correndo pelos campos, os Luperci acertavam as costas das mulheres que encontravam pelo caminho, as quais também se tornavam férteis.

 

A Lupercalia como origem do Valentine’s Day

Durante as festividades da Lupercalia, nomes de jovens solteiros eram sorteados, os quais se conheciam e ficavam juntos durante as celebrações, muitas vezes resultando até em casamento. As uniões que se resultavam eram chamadas de “L’accoppiamento sacro”, “O casamento sagrado”.

A Lupercalia foi uma das últimas celebrações a pagãs a serem abolidas pelos cristãos. No ano de 494, o Papa Gelásio I substituiu as festividades pela Purificação da Virgem, em 2 de fevereiro.

 

A simbologia da Lupercalia

Atualmente, a Lupercalia não é muito lembrada até mesmo na Itália, onde apenas alguns pagãos celebram esta data.

Em ambas as documentações da festividade, tanto por Ovídio, quanto por Plutarco, há a existência de sacrifícios de animais. Obviamente, se formos celebrar a Lupercalia hoje, não haveria nenhum motivo de sacrificar animal algum.

Sempre reforço que todo pagão deve compreender a história e a antropologia do povo relacionado ao seu culto. Temos aqui em questão uma época muito distante, onde as pessoas tinham outras visões e pensamentos. Realmente era comum a crença de que certos sacrifícios transferiam as qualidades dos animais para as pessoas, como nesse caso, a fertilidade.

Semelhante era a prática de algumas tribos ao redor do mundo. Como exemplo alguns índios antropofágicos brasileiros que consumiam seus próprios guerreiros, depois que eram mortos em batalha, acreditando que assim teriam sua força e astúcia.

Claramente não temos mais conhecimento de tribos indígenas brasileiras que praticam antropofagia, como também não há justificativa para praticar sacrifício de animais em rituais pagãos modernos.

d3878bcc6a90ebf63a4b07fa1459d550

Lembrando ainda que a palavra “comemorar”, de acordo com o jornalista Eduardo Bueno, vem de “recordar coletivamente”. Deste modo, comemorando a Lupercália, o povo pagão estaria recordando suas origens e acessando a egrégora de fertilidade. Fertilidade em todos os sentidos: fertilidade feminina, fertilidade de coisas boas, fertilidade em projetos, etc.

Tenham um ótimo período de Lupercália!

Abençoados sejam todos!

Postado por: Surya Ninfea
Contato: suryaninfea@gmail.com

Um comentário em “A Lupercalia e as origens do Valentine’s Day

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s